Opinião

Um adolescente me mostrou como funciona o Snapchat

Assim como a maioria das pessoas, eu não entendia o Snapchat. Eu estava lá, de vez em quando fazia postagens, mandava emojis e stickers pros amigos, tentava encontrar o tchan do app, mas nunca obtive sucesso. Durante os feriados de fim de ano, porém, descobri o porquê do insucesso: o Snapchat não foi feito pra mim e, se você já é maior de idade, possivelmente também não foi feito pra você.

Meu irmão tem 17 anos, curte futebol e videogame, e como boa parte dos adolescentes, possui um smartphone e fica tirando fotos de quase tudo o que vive. Em alguns momentos muito Black Mirror, ele vive a vida pelas lentes do seu celular. Para as pessoas que vivem ao seu redor ele é apenas um jovem que ama tirar fotos, mas esse ato é bem mais significativo para a galera que usa o app do fantasminha.

Quem chega na pagina de download do Snapchat tem uma ideia de suas funções básicas: assim como um monte de redes sociais, o app permite publicar imagens que somem  após 24 horas e que podem ser visualizadas por seguidores. Para quem é da geração 2000, porém, o Snapchat também serve como uma ferramenta social profunda, cheia de validação e com criptografia.

Graças a interface nada amigável, muitos pais nem mesmo tem coragem de usar o app, mas se o fizessem, não teriam como alcançar os “conteúdos comprometedores” dos jovens. Enquanto muitas redes sociais incentivam o compartilhamento de informações públicas, que rendem curtidas e likes, o Snapchat “premia” quem troca fotos nos chats privados, que somem logo após serem visualizadas.

Enquanto eu gosto de ganhar likes e retweets no Twitter, meu irmão passa o dia buscando os “níveis de amizade” do Snapchat, que aparecem quando dois usuários interagem por bastante tempo de forma privada.

Se você e mais alguém trocam fotos exclusivas por alguns dias, ganham um selo indicando que são melhores amigos. Se a pessoa que você manda imagens diariamente troca fotos com outras pessoas além de você, uma carinha diferente aparece, por exemplo. Os “Emojis de Amigos” são explicados nas configurações do app.

Muitas vezes o nível de amizade acaba perdendo o valor, pois é comum para os usuários trocarem fotos de forma privada com muitos usuários, o que torna o Foguinho a parte mais importante dos emojis e, consequentemente, do Snapchat. Quando dois usuários começam a trocar imagens por mais de três dias, um foguinho aparece ao lado do nome da pessoa, junto com o número de dias que os usuários estão trocando mensagens sem interrupções.

O foguinho é o símbolo de intimidade do Snapchat, afinal, a pessoa se importa o suficiente para responder suas mensagens com foto diariamente. Meu irmão é usuário do Snapchat há cerca de um ano e mantém foguinhos com cerca de 50 de seus contatos atualmente. Dá pra imaginar o trabalho que isso dá: a cada foto ou video que ele captura, é necessário clicar em 50 contatos para eles receberem a postagem. Seria mais fácil conpartilhar em modo público? Sim, mas isso nao alimenta os foguinhos do Snap.

Para a galera mais nova, o Foguinho é a parte mais importante do Snapchat

Segundo meu brother, a prática também funciona com uma espécie de Tinder, pois quando você atinge muitos foguinhos com alguém, a relação com a pessoa já fica extremamente próxima, o que auxilia na hora de chamar pra um rolê. Um numero significativo nesse jogo de conquista é alcançar 100 foguinhos com a/o crush, o que dá mais de três meses trocando imagens diariamente sem falhar um dia. Haja perseverança!

Apesar do empenho, meu irmão disse que tudo isso vale a pena por um motivo: privacidade. É estranho dizer que uma rede social que se comunica por imagens protege a privacidade dos usuários, mas isso acontece.

Além de evitar fakes, já que a pessoa tem que gostar de selfies e se expor com frequência para manter os foguinhos vivos, o Snapchat é “anti-print”: as postagens desaparecem após serem visualizadas no modo privado e se alguma captura de tela for identificada, o usuário recebe uma notificação instantaneamente.

“Se você fala ou manda alguma coisa no Whats e rola print, a cidade toda fica sabendo até o fim do dia”, explicou o guri, que vive num município do interior do Rio Grande do Sul.

Apesar de ter sido pioneiro na arte de compartilhar postagens públicas que desaparecem, é inegável que o Snapchat perdeu seu lugar para o Instagram. Porém, o fantasminha continua sendo uma arma potente para os adolescentes manterem a privacidade em um mundo com pais cada vez mais conectados.

Se você quer dar uma segunda chance ao app e tem energia para não deixar os foguinhos apagarem, o Snapchat pode ser baixado para Android e iOS.

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