Opinião

A dublagem é uma sacanagem com o ator que fez o filme

Quando saí de casa para ir à aula de Sociedade e Loucura não esperava refletir tanto sobre o mercado de dublagem nacional. Era a minha primeira aula naquela disciplina, eu não sabia muito o que esperar, já que meus companheiros de curso apenas indicavam ela e não falavam muito sobre. “Vai ser bom, vai por mim.” – era o que diziam mesmo depois de eu insistir por mais comentários. “O professor é muito bom” – ou coisa do tipo. Ao chegar na sala, escolhi sentar no meio da classe e esperei a aula começar. E a aula começou. Minha primeira impressão foi a de que algo estava muito errado. O professor era uma pilha, não parava quieto, esbanjava energia, carisma, vontade de lecionar, coisa rara no meio acadêmico. Explicou seus métodos, e fez afirmações sobre o mundo da psicologia surpreendentes para um aluno de jornalismo como eu, que pouco ouvi sobre essa área em minha vida. Mas foi o que disse sobre um dos filmes que assistiríamos na disciplina que me chamou atenção. Segundo ele, um dos filmes era dublado e fez um comentário que não sairá jamais da minha cabeça: “Infelizmente um deles é dublado. O que, né? Uma sacanagem, a dublagem é uma sacanagem com o ator que fez o filme.”

Três pontos são fundamentais para compreender a sacanagem que a dublagem é com o ator que fez o filme.  Primeiro que ela é um produto. Segundo que é produzida por trabalhadores em condições desfavoráveis. Terceiro que nem todos tem o conhecimento que um professor universitário tem para compreender o filme em sua linguagem original.

A dublagem passa por um longo processo de produção. Primeiro a produtora cinematográfica escolhe um tradutor para fazer a adaptação do filme para a língua em que será dublado. Geralmente os dubladores reclamam muito das adaptações feitas pelos tradutores quando ela chega no estúdio para a gravação. A tradução é uma das etapas mais baratas, feita por uma única pessoa que confere o filme com o texto original geralmente às vésperas da gravação. Ele deve dar sentido às falas originais em nossa língua. Em seguida há a escolha do estúdio de dublagem, o diretor de dublagem seleciona os atores que atuarão substituindo a interpretação original e as gravações são feitas geralmente em um único dia. O dublador recebe o texto apenas na hora da gravação, não há ensaio e nem inúmeras tentativas para a gravar suas falas.

O agendamento de gravações é apertadíssimo e os estúdios precisam gravar dezenas de filmes para que consigam se manter ao longo do mês. Não é apenas no Brasil que dubladores passam por apertos. Nos Estados Unidos, os dubladores entraram em greve no fim do ano passado e estão em uma luta constante por melhores condições de trabalho. Muitos lançamentos estão atrasados por isso, sobretudo filmes de animação e jogos eletrônicos.

A dublagem é um produto. Ela serve para gerar lucro, principalmente para grandes estúdios cinematográficos que conseguem atingir pessoas do mundo todo, lembrando que a dublagem tem presença no mundo inteiro. Alguns países não tem tanta tradição, mas isso está relacionado com o amplo conhecimento de línguas estrangeiras. O número de pessoas com domínio da língua inglesa aqui no Brasil não se compara com o de países da Europa, próximos da Inglaterra e capazes de oferecer uma educação de base forte em línguas estrangeiras. Sobre a afirmação do professor, não creio que os atores estrangeiros concordem ele. Em entrevista ao jornal The New York Times, em 1999, o cineasta italiano Roberto Benigni declarou que apoiava a versão em inglês para o mercado americano de sua obra de maior sucesso, A Vida É Bela, “porque as legendas matam a alma de um filme”. O detalhe mais interessante é que o próprio Benigni era responsável pela dublagem na língua inglesa de seu personagem em Pinóquio , que estreou nos cinemas da Itália em 2002, mas acabou desistindo depois de duas semanas de trabalho, por não gostar de sua performance. Isso por que “todo dublador é ator, mas nem todo ator é dublador”, dublar requer muita técnica. A dublagem permite que atores de cinema de outros países se tornem conhecidos por pessoas que não conseguiriam acompanhar um filme com legendas, esse é um dos principais motivos de atores acharem interessante a dublagem em outra língua. Além disso, utilizando legendas, perde-se grande parte da linguagem cinematográfica utilizada na composição de takes e outras questões estéticas do filme.

Luciano Huck foi chamado para dublar um personagem na trama de Enrolados, filme da Disney – isso por que os estúdios cinematográficos buscam desesperadamente atrair público e ganhar dinheiro. Usar uma figura pública completamente sem experiência em dublagem para fazer um personagem coadjuvante é uma atitude de total desrespeito com atores e dubladores de todo o Brasil, ainda assim é uma boa estratégia para arrecadar alguma quantia a mais.

É importante lembrar que ser dublador é ser ator. E, do ponto de vista popular, ser ator é uma loucura. Sei disso por que quando contei ao meu pai que faria artes cênicas ele não teve uma reação agradável. “Você é louco?” – gritou comigo. E é muito louco pensar que fui louco de não fazer artes cênicas com medo do que pensaria. De qualquer forma não é difícil entender a pressão social que há em cima dos atores, há pouquíssimo apoio à formação de atores na sociedade. Se você não se torna um astro de uma telenovela de grande expressão nacional, trabalha com algo com pouco apoio social e é taxado constantemente de louco ou de alguém à margem de um padrão moral.

A dublagem é sem dúvida uma das áreas que mais me interessa quando o assunto é atuar. Sou fã do teatro e até mesmo das telas, mas trabalhar exclusivamente com a voz é algo que me fascina mais. O Nacionais no YouTube já passa dos 15 mil inscritos, falo de dublagem e faço todo tipo de brincadeira na vibe ator. Por essas razões aquele comentário marcou tanto pra mim. De qualquer forma, essa pesquisa que fiz, serviu pra entender perfeitamente por que a dublagem tantas vezes deixa a desejar e se torna uma sacanagem com o ator que pensa, constrói o personagem e se dedica para passar as emoções tão precisamente em um filme…

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